11h12 - quinta, 30/03/2017

Matar saudades


Vítor Encarnação
Ao fim da tarde, enquanto o sol esmorece, eles irrompem da madrugada da memória. Voltam à terra que os viu nascer, voltam ao início de si mesmos, voltam ao ventre que os teve. Ali onde deram os primeiros passos, ali onde descobriram todas as primeiras coisas do mundo, ali onde se despediram, ali onde os pais estão enterrados, ali onde têm de voltar para não se tornarem anónimos.
A primeira coisa que fazem é abraçar-se, comprimir os peitos contra os peitos para que os corações se toquem. E depois, beijados os rostos e secadas as lágrimas, abraçam-se outra vez.
São searas de saudade à espera que a meiga foice dos sorrisos as venham ceifar e na terra plana dos olhos mais não haja que uma felicidade absolutamente transparente.
No princípio da noite há um alvor de lua emocionada crescendo nos peitos. E todos, os que foram e os outros que cá ficaram, estão sedentos de juntar o passado ao presente. Para perceberem como chegaram até ali tantos anos depois.
Há uma aurora de carinhos e rugas bonitas e cabelos brancos que brincam na noite como meninos. Há anos que não se viam. Alguns tinham abalado e levado tudo com eles. Uns levaram o corpo, outros a família, uns tantos a necessidade, quase todos os sonhos. Mas não levaram as raízes, o calor do ninho, a matriz da cal. A vida é um fado que demora, que se enleia na tristeza dos dias, é uma coisa que se adia, que nos vai afastando da essência da nossa identidade. Mas, por mais que tentemos negar, há uma evidência incontornável e simples: o ser humano precisa de ternura, de um sorriso, de compreensão, de pertença. Precisa de voltar, de fazer o caminho inverso, descer o tempo e ir ao passado.
Voltam agora ao sítio onde foram felizes. E nós devemos sempre voltar ao sítio onde fomos felizes. Chegam dos labirintos da existência, atravessaram abismos, experimentaram caminhos. Diferentes por fora. Mais gordos, mais carecas, mais velhos, mais grisalhos, mais cansados. Mas felizes.
Faltam alguns, alguns já partiram, alguns já partiram antes de tempo, quem havia de dizer, a vida não perdoa. Amanhã levarão flores, amanhã irão dizer-lhes que chegará o dia em que se encontrarão todos. Uns mais cedo outros mais tarde, mas todos voltarão a encontrar-se. Aí não faltará nenhum.
Mas agora estão vivos, hoje muito mais vivos. Levantam os copos, levantam as almas e brindam. As vozes são muitas e vibrantes porque os corações estão perto das bocas e os olhos brilhantes são o dobro das vozes.
Não há muitas situações na vida que emocionalmente superem o reencontro de amigos que não se viam há muitos anos.
É terna a noite. Às vezes, o futuro é o passado.



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