11h36 - quarta, 12/04/2017

Esta Lisboa que eu amo


Napoleão Mira
Houve um tempo (largo por sinal!) em que eu e Lisboa nos divorciámos.
Como fui eu que o pedi, ela ficou, eu parti.
De vez em quando regressava. Quando o fazia sentia uma certa nostalgia da cidade onde crescera e me tornara homem mas, ao mesmo tempo, também sentia um desejo inabalável de deixar para trás a ponte que nos separava e rumar ao sul.
Eram sentimentos ambíguos. Uma parte de mim, pedia-me para ficar, a outra, implorava-me que zarpasse.
A que me pedia para ficar, remetia-me para aquela maneira de estar alfacinha de que sempre gostei. Para aquele bairrismo aldeão que faz com que Lisboa seja o pedaço de território português com mais aldeias por quilómetro quadrado. Talvez imbuído nesse espírito, Alberto Caeiro escreveu um dia, quiçá sentado à sua beira: O Tejo é o maior rio que corre na minha aldeia.
Depois ausentei-me quase de vez e as visitas tornaram-se mais esporádicas.
No passado fim de semana regressei e fiz as pazes com ela.
A cidade que eu afinal sempre amei, desculpou-me e recebeu-me de braços abertos. De braços abertos para um rio que quando eu partira vivia de costas voltadas para ela.
Na noite em que cheguei desci às Portas de Santo Antão. Amália regressara ao Politiema e a sua herdeira, Gisela João, actuava no Coliseu.
Caramba! Lisboa resplandecia de orgulho nos seus. Optei pelo furacão minhoto que conquistou Lisboa e o mundo.
Emocionei-me com o trovão na voz desta pequena mulher que se agigantava no palco como Amália o fazia sempre que pisava as tábuas do velho Coliseu, conquistando uma, e agora a outra, o aplauso generoso de quem teve a sorte de as ver evoluir no tabuado.
Na manhã de sábado regressei ao Rossio. O Paulo engraxador com caixa pela baixa, abrilhantou-me os sapatos enquanto eu degustava a intemporal ginjinha. De repente, senti que estava em casa. Que afinal, eu sempre ali pertencera.
Que para além de Alentejano, também era Lisboeta. Que esta Lisboa que eu amara e, afinal amo, me aguardara resignada durante todos estes anos.
Subi devagar ao Chiado respirando os ares cosmopolitas desta Lisboa da moda.
Já na Rua do Alecrim degustámos uma excelente refeição no novíssimo Palácio do Chiado, outrora Palácio Quintela onde, para além das iguarias aqui servidas fruto de um cardápio variado, revisitei o espírito de Eça de Queirós e de uma Lisboa novecentista que ainda me baila na memória e que me deu vontade de a ela regressar em próxima leitura do grande mestre.
Descendo a rua que tem nome de erva de cheiro, rumei ao Cais do Sodré.
Já próximo do seu final deparei-me com um novo conceito de barbearia, de seu nome Fígaro, que me fez viajar no tempo até uma Lisboa dos anos vinte.
Uma bateria de barbeiros avant garde munidos de tesouras e navalhas rodopiavam à volta de clientes ávidos de um look condizente com o espírito pós-moderno da renovada capital.
Definitivamente, esta cidade está mudada...e para muito melhor!
Descido ao rio que, agora namora com aquela com quem vivera de costas voltadas, volto a surpreender-me.
Aqui, à beira-rio, pulsa uma cidade que desconhecia. Uma cidade que fez as pazes com o seu amor de sempre, que agora, em segundas núpcias, parecem fazer juras de não mais se separarem.
Lá mais para a frente, já com Alcântara na retina, visitei o novo MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia - que me deixou abismado pelo seu arrojo arquitectónico e pela modernidade da exposição visitada.
No regresso apanhei um Uber e jurei não voltar a apanhar um táxi em Lisboa. Barato, limpo, funcional, moderno e educado, tudo o que falta à maioria dos taxistas da capital.
Ainda regressei ao Parque Mayer para, no novo Capitólio, assistir ao espetáculo de homenagem à chilena Violeta Parra e para revisitar amigos que há muito não via.
Com o machado de guerra enterrado, as pazes feitas, o armistício assinado, jurei voltar logo que possa. A uma Lisboa que eu amo e que, de certeza, nunca terei deixado de amar.



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