12h20 - quinta, 26/10/2017

Coerência


Vítor Encarnação
A estratégia e o tacticismo tendo em conta uma determinada circunstância são os maiores inimigos da coerência. Onde aquelas estão esta não pode estar.
A estratégia e o tacticismo sobrepõem-se sempre à coesão de uma ideia, à força de um princípio, nada é mais perigoso para a transparência social, comunitária, associativa, política, do que os contorcionistas de carácter. São capazes de tudo, estão dispostos a tudo, cegos pelo objectivo e pelos possíveis dividendos, caminham lestos, imperturbáveis e triunfantes. Esquecem tudo aquilo que aprenderam em casa, estudaram na escola, ouviram na missa, ou talvez não, fazem tábua-rasa da moral e dos valores, olvidam o passado, as coisas que disseram, os nomes que chamaram, as juras que fizeram, dessa água nunca beberei, as bandeiras que empunharam, as cores que vestiram e num ápice mudam. E depois, para aliviar as suas próprias consciências e tentar fazer dos outros tolinhos, invocam que só os burros é que não mudam, que até nem tinham visto bem as coisas, que não devemos ser teimosos, que afinal andavam enganados, que se lhes acendeu uma luz interior, que qualquer coisa mística os guiou até ao contrário daquilo que eram.
A coerência é uma qualidade que ou se tem ou não se tem. Não há uma segunda oportunidade para o exercício da coerência. Não vale a pena procurar subterfúgios, teorias, tratados e teses. A coerência não é um conceito abstrato, não é de interpretação múltipla, não se joga num tabuleiro, não usa máscara, nem palavras vãs, a coerência liga o princípio e o fim de um homem ou de uma mulher, é o seu passado, o seu presente e irrevogavelmente há-de ser o seu futuro, dá-lhe substância, dá-lhe estrutura, dá-lhe crédito, dá-lhe autoridade e voz activa.
Há pessoas que à luz dos padrões sociais mais cintilantes nunca são nada, nunca se põem em bicos de pés para chegar mais alto, nunca o ego lhes transborda, nunca a circunstância os muda e por isso vivem, e hão-de morrer, incógnitos mas coerentes. Coerentes consigo próprios e com os valores que os norteiam, coerentes com a abordagem que fazem da sua vida e da vida dos outros, amigos, leais, calando coisas em nome da harmonia e da paz, desvalorizando devaneios e desaforos, ouvindo, compreendendo, perdoando.
Mas ser coerente não é fácil, os frutos do pecado estão cirurgicamente espalhados por aí, um doce aqui outro ali, uma palmadinha nas costas aqui outra acolá, um lugarzinho aqui outro lá mais em cima, uma encenação para cidadão ver, um cargo qualquer à espera.
A coerência não se dobra para apanhar migalhas, nem vai por caminhos opacos. Quem quer ser coerente tem de ser sempre transparente.
A coerência devia estar para o carácter como os ossos estão para o corpo. Ambos deviam servir para os manter direitos.



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