15h56 - quinta, 21/12/2017

Cartas


Vítor Encarnação
Em sete anos de namoro, D. Manuela nunca recebeu uma carta de amor. Nem ao menos um papelinho daqueles que embrulham segredos e no escuro se traficam com as mãos, se entregam clandestinos e fazem corar. Nunca o coração esperou tonto pelo carteiro, nunca os passos foram largos a caminho da caixa do correio, nunca os olhos voaram do remetente para o destinatário, nunca os dedos absolutamente descontrolados rasgaram qualquer envelope, nunca o corpo a pulsar se fechou no quarto comendo as letras com lábios de apetite. Nem nunca depois de as ler pousou a cabeça na almofada, a carta no peito e nenhuma vez terá fechado os olhos para melhor ver as palavras por dentro, o creme de que foram feitas, as mãos do amado que as amassaram, a quantidade de fermento de paixão que as fez tão tenras. Não porque não houvesse desejos e mistérios por revelar.
Lá na tropa, o soldado Lopes só pensava nela. Amava-a intensamente como se ama no princípio das coisas, como se quer ardentemente o que ainda não se teve. Cândido Lopes escrevia-lhe diariamente uma carta. Queridinha Nélita. Amorzinho meu. Escrevia-as à noite com letra imperfeita, repetitivas, esgotando em cada uma o escasso vocabulário que conhecia. Depois de escritas guardava-as religiosamente.
Em dois anos não chegou a enviar nenhuma. É que D. Manuela não sabia ler nem escrever.
Ela só percebia as coisas ditas. As interrogações dos olhos. As vírgulas do silêncio.
Era assim com o amor e era assim com tudo o resto. A vida de D. Manuela não tinha instruções escritas, nem literatura inclusa e não sabia fazer os bolos por receita.
A vizinha dizia-lhe que aqueles riscos queriam dizer mar, mas neles ela não via azul, nem ondas, nem barcos, nem gaivotas. Aquela palavra não tinha sal e D. Manuela tinha pena de não saber uma letra do tamanho do mar.
Casou, e Cândido Lopes, ainda que limitado pela sua fraca escolaridade, leu-lhe o Amor de Perdição em voz alta. Foi a sua lua-de-mel. Curta, talvez três ou quatro serões.
Depois, a partir daí foi só esperar que a taberna fechasse e o seu homem voltasse para casa e não fosse mais vinho do que homem.
D. Manuela fez uma jura a si mesma: ainda que os braços dos filhos fossem necessários para trazer pão para casa, todos eles iriam à escola. Fê-los prometer que cada um deles aprenderia a ler as legendas da vida.
Quinze netos, quatro bisnetos e sessenta e cinco anos depois, D. Manuela está sentada numa carteira de escola. Muito direita e concentrada, não perde uma explicação da professora, não lhe escapa um pormenor do abecedário. Aprende sem descanso as letras, as sílabas, as palavras maiores.
E quando ninguém a vê, fecha-se no quarto e tira um envelope de debaixo do colchão.
Abre-o com dedos trémulos e lê em segredo.
Depois pousa a cabeça na almofada e coloca a carta no peito.
Ainda ama o soldado Lopes.
Deus lhe tenha a alma em descanso.



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