12h41 - quinta, 19/04/2018

Ser feliz


Vítor Encarnação
Havia quarenta anos que aquele caderno estava guardado dentro de uma caixa de cartão. Era um caderno usado, sobras de um ano de escola. Sabia claramente o que nele havia escrito, pois era uma frase curta, desejo de duas palavras, título dado ao futuro. "Ser feliz".
Estas palavras foram lá postas com o mesmo cuidado que se tem quando se dá comida a um pássaro perdido: a mão tem de ser terna e pequena. A negro, as oito letras estão lá cunhadas num papel amarelecido pela razão do tempo. A estas palavras há quem lhe chame verbo e complemento, mas para ele eram promessas e destino.
É preciso dizer que as letras estavam agarradas bem ao cimo da folha. Para deixar campo para o resto. Para o sopro da felicidade. Todo o espaço branco era uma redacção ainda só com o tema. Uma vida toda por fazer. E agora quarenta anos depois daquela jura ter sido feita, era ali naquele bocado de espelho opaco, naquele documento pessoal e intransmissível que se tinha de prestar contas, de dar resposta, de fechar parágrafo e fazer a avaliação final.
Quando as escreveu não fazia ideia de quanto tempo era quarenta anos. Quantas vidas quisemos ter. Quantas encruzilhadas. Quantas mentiras. E regressos. E abandonos. E medos. E resignações. E fantasias.
Quarenta anos é muito tempo. (Quanto tempo é tanto tempo?).
Mal sabia ele do fundo e do firmamento dos seus dez anos que aquelas oito letras eram um desafio soberbo. Um trabalho descomunal que ia muito para além dos limites de um homem. Sozinho. Era agora a hora de arrumar contas, de ver os débitos e os créditos, de calcular-se por dentro, de arranjar adjectivos, de firmar-se na vida e dizer como foi. Quando o relógio anunciou que tinham passados quarenta anos, abriu o caderno. Agarrou numa caneta de tinta preta e viu que a mão já não era pequena, talvez já nem terna.
Acendeu um cigarro, expeliu o fumo e os nervos e abriu o passado. Afastou as cortinas do tempo. Atou-as para ver melhor. Uma ao princípio da memória. Outra ao silêncio daquela noite. Que é como quem diz aos limites da folha. Enquadrou-se.
Não podia usar corrector, nem rasurar, nem usar o dicionário. A infância só lhe tinha deixado aquela folha. Era ali que tinha que pôr a vida. Nem mais nem menos. Sem inventar. Sem fugir de nada. Sem nenhum embuste. Apenas e só, sujeito, verbo e complemento.
O título lá estava. Completo e faminto. Um corpo à espera de outro que o preencha. Uma água cheia que tem de correr para qualquer lado. Uma barragem que já não aguenta e anseia por um rio que a leve.
Afinal quantas vezes fora feliz? Quantas vezes se alindou o mundo?
Escreveu sem um erro, sem uma hesitação.
Mas quando pousou a caneta, a folha mostrava sinais de luta.



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