12h45 - quinta, 17/05/2018

Paternidade


Vítor Encarnação
De um prazer gritado ou de um silêncio bordado, cientificamente um filho nasce de um orgasmo. A célula genital masculina, presume-se, nada saberá de amor, de paixão ou de romance. Fecunda pela mesma razão que uma nuvem faz chover, pela mesma causa que um grão se mete na terra, com o mesmo intuito que uma chave abre uma porta.
Um pai começa por ser isto. Uma nuvem na noite sobre o corpo da mãe. E depois quando a barriga da mulher se arredonda como o mundo, o homem já não é a ciência de um espermatozóide, é sim um Deus pequenino mas absoluto.
Ansioso, à beira da madre, o homem espera que a maré do útero chegue e lhe traga o fruto do nosso ventre. E o filho chega. Rasga a vagina da mãe, abre-lhe as pernas numa dor formidável e não digam que é feio dizer que é este o melhor caminho. É isto que tem de ser. Foi por ali que o pai entrou. É assim a lei da carne.
– E porque é que as crianças choram quando nascem? Porque não se riem elas? Que notícias trarão elas dos mistérios do mundo? –
Beija-o. A pele do filho sabe-lhe a si quando ama. Encosta-o, aperta-o muito junto ao peito porque sabe que agora, lá bem dentro da sua vida, é a sua vez de o ter. Mira-o enquanto dorme. Com os olhos embebidos de lágrimas felizes tenta adivinhar-lhe as feições que a idade ainda não decidiu e o tempo ainda não desenhou.
Tudo no filho é ainda uma hipótese, um livro em branco, um esboço. Quer que ele seja o mais bonito, o mais perfeito, o ai Jesus da vida. E a criança dorme, ainda, o sono dos justos. E também ele, agora pai, criador, mestre, já esteve assim abrigado dos males do mundo, enroscado num ninho de peito e de leite.
Se a mãe foi o útero da germinação, ele tentará ser uma nascente de afectos. Para isso terá de abrir o baú das lembranças, reavivar histórias esquecidas, refrescar a memória, animar soldadinhos de chumbo e casinhas de chocolate. Visitará princesas, bruxas e duendes. Bastará um beijo para ser sapo e depois ser príncipe. As suas mãos terão de saber fazer sombras e marionetas. A voz será canto, rugido e urro. As pernas serão baloiço. Os braços cadeirinha voadora. O colo berço. Brincará às garagens, às corridas de carrinhos, às escondidas e ao mata. Mas o filho ainda é demasiado novo para saber que à medida que encaixa as peças do lego, o pai encaixa também as peças da vida.
Com o filho às cavalitas, o seu coração bate como uma caixinha de música.
E à noite, quando a lua se agarra ao céu, o pai vai ao quarto do filho. Entra pé ante pé, e ali fica em silêncio olhando o corpo que dorme agarrado a um boneco de peluche. Arruma os brinquedos que sobraram do jogo do faz de conta. Aconchega-o. Ajeita o lençol e beija-o.
A respiração serena do filho é uma canção de embalar.
Dorme bem. Até amanhã.



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