16h24 - quinta, 12/07/2018

Tradição e ruralidade


Vítor Encarnação
Houve tempos em que cantar ainda não era um património cultural, a comida ainda não se chamava gastronomia, as lonjuras ainda só cansavam as pernas e os sonhos, a calma não acalmava assim tanto, o vinho não se bebia em copos de pé alto nas casas de turismo rural. Cantava-se para purgar contrariedades, comia-se para se matar a fome, calcorreavam-se léguas de pó e lama, suavam-se sóis debaixo das boinas e o vinho fazia esquecer a manhã seguinte e bebia-se nas tabernas em copos pequenos como a vida.
Os tempos mudaram, nós mudámos o tempo e o tempo mudou muita coisa. Mudou a percepção que as pessoas têm de nós, mudou o conceito de arte, a ideia e a prática de cultura. Aprendemos que aquilo que anteriormente era visto como antigo, provinciano, popularucho, folclórico e nunca podia fazer parte da cultura enquanto conceito global, é afinal o que nos define, aquilo que nos distingue.
Houve dois factores fundamentais para essa mudança: por um lado a percepção, alicerçada num conhecimento antropológico, histórico e social, de que a nossa tradição é a espinha vertebral que nos sustenta como povo, e por outro lado o crescente fascínio que esta ruralidade nas suas mais variadas formas de expressão provocou um pouco por todo o lado. Há na nossa ruralidade uma elegância que seduz. Uma espécie de reencontro com um paraíso perdido. E isso explica-se porque, para se entender a si mesmo, o ser humano precisa de regressar às emoções, precisa de deixar fluir o tempo para poder fruir a vida. E nós temos tudo isso, temos um passado de portas abertas, um passado digno, orgulhoso, um largo onde as pessoas podem ver e tocar e sentir e saborear, um passado que, através de uma lapidação aturada e apurada, soubemos transformar em presente e que sabemos terá de ser o caminho para o nosso futuro. Quem nos havia de dizer a nós que o cante, o vinho, o pão, o montado, o azeite, a lonjura e o vagar, seriam a trave mestra de uma identidade tão amada?
Soubemos explicar o que temos e o que somos. Ainda fomos a tempo de resgatar a nossa essência, assumimos que somos o que somos porque fomos aquilo que fomos. Deixámos de ter vergonha e algum complexo de inferioridade, abrimos portas, janelas, baús, peitos, bocas, olhos, montes, horizontes, memórias, museus. Resgatámos a poesia popular, as violas campaniças, os grupos corais, o despique e o baldão, recuperámos palavras perdidas, salvámos receitas e histórias. Soubemos fazer a tradução da tradição. Mais que um entretenimento ou um passatempo, a tradição é um abraço, uma partilha, uma questão existencial, uma causa colectiva.
A ruralidade não é um postal ilustrado, uma fotografia que se publica nas redes sociais, um livro que se compra e se esquece, um CD que se leva e não se ouve.
A ruralidade não cabe dentro de um saco de asas. É preciso uma alma grande.



Outros artigos de Vítor Encarnação

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
08h00 - quinta, 20/06/2019
Luís Aurélio no
campeão da Roménia
O médio Luís Aurélio, natural de Nossa Senhora das Neves, vai continuar a jogar na principal liga da Roménia, depois de ter sido recentemente anunciado como reforço dos romenos do Cluj, que se sagraram campeões nacionais em 2018-2019.
08h00 - quinta, 20/06/2019
Beja: Obras no museu
da rua do Sembrano
A Câmara de Beja iniciou na terça-feira, 18 de Junho, as obras de impermeabilização da cobertura do edifício onde funciona o Núcleo Museológico do Sembrano, criado no âmbito do programa "BejaPolis".
08h00 - quinta, 20/06/2019
PCP preocupado com
carência de médicos
Os deputados do PCP João Dias, Carla Cruz e Paula Santos questionaram o Governo, através do Ministério da Saúde, sobre a carência de médicos no Centro de Saúde de Aljustrel e na Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA).
07h00 - quarta, 19/06/2019
Câmara de Ourique promove ATL de Verão
Ocupar as férias escolares das crianças e jovens do concelho é o objectivo da Câmara de Ourique, que a partir da próxima segunda-feira, 24 de Junho, promove mais uma edição do ATL de Verão para os alunos do pré-escolar e primeiro ciclo do ensino básico.
07h00 - quarta, 19/06/2019
Governo disponível para
ajudar pescadores da Azenha
O secretário de Estado das Pescas garante que o Governo está disponível para colaborar com a Câmara de Odemira e a ACDPMAM na recuperação dos equipamentos do portinho de pesca da Azenha do Mar destruídos pelo incêndio de 6 de Maio.

Data: 14/06/2019
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial