15h59 - quinta, 26/07/2018

La Paz


Napoleão Mira
Nesta incursão por La Paz, capital da Bolívia, fizemos poiso na Praça de San Pedro. Uma praça quadrada, banal, com edifícios a circundá-la e um prazenteiro jardim ao meio onde esvoaçavam crianças em alegre correria e estridente gritaria; onde reformados liam jornais ou conversavam acerca da carestia de vida; onde senhoras faziam crochet enquanto, de soslaio, apreciavam as toilletes das outras que passava; onde vendedores de gelados e outras iguarias faziam as delícias da criançada e onde havia um invulgar número de polícias junto a um portão de um enorme edifício.
– Ali é a famosa prisão de San Pedro – declarou Nicolau (nosso guia local para o dia de hoje), apontando ao estabelecimento prisional, como se esperasse ser bombardeado por questões.
Eu, que passara por um vídeo daquele lugar quando procurava informação acerca de La Paz, fiquei na expectativa da devida explicação e, ao mesmo tempo, torcendo para que ainda fosse possível visitar este inusitado lugar, conforme tinha visto no vídeo a que assistira.
– Esta é uma prisão muito especial. Os polícias que estão ali fora apenas guardam a entrada do edifício. Lá dentro quem manda são os presos. – Todos os ouvidos parecerem de repente apenas estar atentos ao que o diligente guia debitava. E, sabendo a audiência cativa, prosseguiu. – Sim, quem manda lá dentro são os presos! A prisão de San Pedro, mais que um local de encarceramento, é uma micro-sociedade com todas as suas regras, leis e hierarquias.
Ali dentro vivem cerca de 1.500 detidos. O Estado boliviano não gasta um cêntimo com estes reclusos. São eles que têm de pagar a sua própria subsistência através dos múltiplos trabalhos necessários ao dia-a-dia de uma pequena cidade como é a de San Pedro, só que esta tem a particularidade de ter uma população presidiária. Bem, presidiária na sua maioria, já que uma percentagem vive aí com a sua família, o que, desde já, vos dá uma ideia do particular que este estabelecimento de reclusão é.
Para além disso, lá dentro, poderemos encontrar lojas, restaurantes, oficinas etc., tudo implementado e dirigido por reclusos. É claro que, como em todas as sociedades existem os mais poderosos. Os que mandam. Mas não se pense que apenas impera a lei da força; a força do voto também elege por determinados períodos os delegados que, com a autoridade daí emanada, são uma espécie de governo interno da prisão.
Caso o recluso não tenha dinheiro nem trabalho vive na rua e das esmolas de terceiros. É lá dentro um sem-abrigo como seria cá fora. Por outro lado, se tiver uma profissão ou for empreendedor poderá facilmente ascender socialmente dentro desta invulgar sociedade.
– E as pessoas não fogem desta prisão? – Perguntou uma rapariga loura, de sotaque australiano, chapéu de aba larga e óculos escuros, sublinhando deste modo a sua condição de turista.
– Fugir, fogem – respondeu Nicolau acrescentando – Só que não queiras estar na pele desse fugitivo quando é apanhado. É entregue ao "governo interno da prisão" onde lhe é aplicado um castigo muito maior do que o da justiça boliviano. E porquê? Porque os prisioneiros não querem perder os seus privilégios, as suas regalias, em suma, a sua liberdade entreparedes e, com as fugas a acontecer, as regras certamente seriam outras. – e sem se deter – Lá dentro os reclusos são implacáveis para com os que praticam crimes sobre crianças e mulheres. Para esses, espera-os a segregação e o castigo na "piscina", temerário local onde são aplicadas as punições físicas aos prevaricadores fugitivos ou aos reclusos odiados.
Com a audiência na mão, Nicolau podia dar azo e uso aos seus conhecimentos. Para tal juntou-nos num círculo e continuou o seu relato.
– Imaginem que entremuros até um hotel existe. Sim! Um hotel básico, mas um hotel. Até há pouco tempo haviam mesmo visitas guiadas ao interior da prisão. Mas, devido ao tráfico de droga entre prisioneiros e visitantes estas foram proibidas. Agora só podemos assistir ao triste espectáculo dos polícias corruptos que abordam os turistas com a desculpa de terem fotografado um edifício do Estado e, com esta escusa, lhes apreenderem máquinas fotográficas e smartphones, devolvendo-os apenas contra pesada multa sem recibo; ou seja, sob coacção.
E já a caminho Nicolau rematou: – Paradoxalmente, para os turistas, são mais perigosos os polícias que os ladrões. E é este o quadro da sociedade limeña dos nossos dias, inferiu Nicolau algo agastado.



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