16h18 - quinta, 11/10/2018

Selva Amazónica


Napoleão Mira
Lá pelas três da madrugada começámos a ouvir as primeiras gotas de chuva a desmoronarem-se sobre a chapa de zinco.
Estas, que começaram como uma agradável sinfonia, rapidamente se transformaram numa ruidosa chinfrineira. Parecia que a ira dos deuses tinha desabado sobre nós.
Aconcheguei-me naquela espécie de cama e, de olho aberto e ouvido à escuta, deixei-me ali ficar, deliciando-me com a pequenez da minha existência face à brutalidade dos elementos.
Quando o novo dia amanheceu, vinha embrulhado em nuvens de chumbo o que deitou por terra os planos de despertarmos às quatro da madrugada.
Como o programa foi alterado, Wiberth – o nosso guia – decidiu levar-nos de barco num périplo pela selva explorando o rio Alto Madre de Dios e as suas margens, que incluía aqui e ali uma incursão floresta adentro.
Num dos braços deste rio que penetra selva adentro, o El Solitário – assim se chama o nosso barco –, encosta à margem.
Deambulando selva adentro, muitas vezes abrindo caminho à catanada, vamos dar a uma chapada onde vive um velho índio que reclama para si o título de guardião da floresta.
Filipe, assim se chama o ancião, vive nesta clareira, numa casa de madeira sem paredes, portas ou janelas, apenas um estrado levantado a um metro do chão encimado por um telhado de folhagem de palmeira. Vive aqui sozinho do que a terra e o rio lhe proporcionam.
Possui um pequeno barco que usa como transporte para ocasionalmente se deslocar ao povoado mais vizinho para se aviar dos poucos produtos que a floresta não lhe fornece.
A Amazónia é uma experiência única. Para viver aqui é preciso mais que coragem.
É necessária uma enorme dose de paixão e uma capacidade de sofrimento para a qual não fui talhado.
As incursões na floresta, onde passados alguns minutos estou empapado em suor, são o meu calcanhar de Aquiles. Ao contrário dos meus companheiros, não acho piada nenhuma ao penetrar selva adentro enquanto sou devorado vivo por mosquitos e outros insectos indecifráveis, apenas para procurarmos uma espécie da flora local ou ouvir ao longe as falas da fauna local.
Divirto-me mais a esgravatar na vida dos Filipes destes matagais do que na incessante busca de curiosidades biológicas para as quais não vislumbro vocação.
De regresso ao nosso acampamento, vamos em busca de um opíparo almoço preparado pelo reservado Maurício.
Não restam dúvidas de que este homem, feito de silêncios e sorrisos ingénuos, é um cozinheiro de mão cheia. Com os poucos víveres e ingredientes ao seu dispor, consegue a cada refeição surpreender o nosso palato.
Pela tarde voltámos à faina ribeirinha com as tais incursões floresta adentro tão do meu desagrado.
O regresso ao acampamento já foi feito com a luz do dia a escassear. Se porventura o barco avariasse ou tivéssemos um outro qualquer percalço, seria penoso encontrarmos o caminho de regresso, tanto mais que da margem do rio ao acampamento ainda são umas centenas de metros e, logo que a noite cai, instala-se uma negritude que nada deixa ver a mais de um metro de distância.
À volta da mesa, enquanto aguardamos o jantar, conversa-se sobre as incidências do dia e do que está para vir a seguir ao jantar.
Está programada para mais tarde uma incursão nocturna para encontrar cobras, caimões, aranhas e outros animais que se podem descobrir mais facilmente quando encandeados pela luz das lanternas.
Pela minha parte, não vislumbro qualquer interesse nesse raide noctívago e decido ficar por aqui à volta das minhas notas, tentando dar-lhe algum sentido cronológico.
No silêncio da noite calada, à luz de uma tremeluzente vela, recolho-me em mim e penso o quão privilegiado sou por estar aqui neste recanto do mundo, no meio desta imensidão de verde que agora se transformou num negro tão lúgubre que me causa calafrios.
Sou cada vez mais um ser que sabe de onde vem mas não sabe para onde vai... Sei, no entanto, que caminhos devo tomar. O que eu quero é ser feliz e esta viagem ao Peru e Bolívia enriqueceram de sobremaneira esse património de felicidade que busco incessantemente.
Desta busca feita de horizontes por descobrir faço as minhas cogitações e, com elas, deixo-me enlear nos braços de Morfeu, por estas paragens do fim do mundo.



Outros artigos de Napoleão Mira

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - quinta, 21/02/2019
Presidente da Almina:
"Vamos investir 25 milhões em 2019"
O presidente da administração da Almina faz um balanço positivo do ano de 2018, ainda que a empresa não tenha conseguido alcançar os resultados previstos.
07h00 - quinta, 21/02/2019
EMAS Beja
melhora gestão de
águas residuais
Colocar a cidade de Beja "como uma referência" ao nível do tratamento de águas residuais urbanas é o grande objectivo da Empresa Municipal de Água e Saneamento (EMAS) de Beja, que vai implementar em 2019 um plano operacional estratégico para alcançar "uma melhoria significativa" na gestão das redes de águas residuais do concelho.
07h00 - quinta, 21/02/2019
PS de Beja elogia
passagem do Museu
Regional para a DRCA
A Concelhia de Beja do PS elogia a transferência do Museu Regional para a tutela da Direcção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA), considerando que esta "potenciará Beja e o seu património junto de um público muito mais alargado".
07h00 - quinta, 21/02/2019
Dois linces-ibéricos
libertados no
concelho de Mértola
A Herdade da Bombeira, no concelho de Mértola, recebe nesta quinta-feira, 21, a libertação de mais dois linces-Ibéricos, um macho e uma fêmea com 11 meses de idade, oriundos do Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro de Silves e do Centro La Granilla, em Espanha.
07h00 - quarta, 20/02/2019
Orquestra Clássica
nasce em Almodôvar
A manhã do passado sábado, 2 de Fevereiro, marcou o arranque do novo (e ambicioso) projecto da Almovimento-Associação Desportiva, Recreativa e Cultural de Almodôvar: a Orquestra Clássica.

Data: 08/02/2019
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial