12h16 - quinta, 20/12/2018

Se os animais falassem


Vítor Encarnação
Quando eu era pequeno, com excepção do meu cão Piruças que um dia me disse que me adorava, já havia muito tempo que os animais tinham deixado de saber falar. De facto, tirando este meu amigo de quatro patas, nunca conheci mais nenhum que falasse. Como tal nunca consegui trocar umas ideias prévias com as rãs, os pássaros e os ouriços que eu comi em petiscos ditados pela minha cultura campesina.
Não havia nada na minha circunstância de vida que me fizesse sentir culpado por comer tais iguarias. Também não me senti bárbaro quando armava aos pássaros ou lhes atirava pedras com uma fisga. Os meus avós e os meus pais matavam porcos e galinhas, perus no Natal, borregos na Páscoa, derramavam o sangue dos bichos, arrancavam-lhes as entranhas, cortavam-lhes a carne ainda quente, e nem por isso alguma vez nunca se sentiram desumanos. Nunca houve uma questão sobre se era certo ou errado, nunca houve uma abordagem existencial, nunca uma lágrima se verteu por uma galinha, por um borrego, nunca a mão que segurava a faca lhes tremeu. Era assim a subsistência, do corpo e da tradição.
Desde que o meu cão Piruças morreu, que foi o único animal que eu ouvi falar, muita coisa mudou na minha vida. Já não como rãs, pássaros ou ouriços, há muito que já não armo aos pássaros, já não tenho fisga, nunca mais atei uma lata ao rabo de um gato, nunca mais embebedei um peru, já ninguém na minha família mata animais olhando-os nos olhos, viajei, li livros, conheci outros hábitos e outros costumes, vi outras atitudes e outros princípios, mudei por causa disso, condeno de uma forma veemente a violência sobre os animais, entristece-me profundamente o abandono dos cães, não gosto de ver pássaros em gaiolas, já não deliro com garraiadas, nunca mais fui ao Campo Pequeno, não concordo com o grande Manuel Alegre quando diz que quem não percebe touradas não consegue perceber a poesia.
Quando olho para a circunstância da criança que fui arrependo-me de alguma crueldade, talvez os animais tivessem merecido mais respeito da minha parte, mesmo aqueles que não falavam.
Mudei, acho que o suficiente, para contribuir para um novo tempo na relação entre os homens e os animais. Estou mais consciente dos direitos destes últimos, tenho com eles uma relação mais humanista, mas impus a mim mesmo que não havia de cair no exagero, muito menos no radicalismo.
A capacidade de discernimento intelectual que fui adquirindo não me dá o direito puramente intelectual de negar o direito que as pessoas têm à manutenção de uma tradição, seja ela da matança do porco, das lides tauromáquicas ou de não querer conviver com um cão à mesa de um restaurante. Se entendo que esta negação pode ser compreendida, por ser uma atitude de princípio, há uma corrente absurda na sociedade portuguesa que eu contesto. Quem afirma que um ditado popular utilizando a figura do animal é depreciativa para a espécie está a passar um atestado de menoridade. Quem tenta, com uma absoluta autoridade moral, apagar desta vida canções e fábulas centenárias como sendo a causa da violência contra os animais está a tentar fazer de nós tolinhos.
Esta tentativa de desinfectar culturas e tradições é surreal e abusiva. Uma coisa é dar aos animais um espaço digno e equilibrado na nossa sociedade, outra é dar-lhes uma capacidade de discutir filosofia.
É pena o meu Piruças já ter morrido, ele era o único animal que eu conheci capaz de trocar comigo umas ideias sobre o assunto.



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