12h43 - quinta, 24/01/2019

O tempo não se esquece de ninguém


Vítor Encarnação
Estranhamente, o espelho que ele tem em casa há tantos anos mudou muito. De repente surgem vincos no brilho, flacidez no reflexo. Parece que é o pai ou um tio que se insinua ali à frente dos seus olhos e se vai fazendo, moldando da sua carne e dos seus gestos decalcados no vidro. Só se não quiser é que não vê já o rascunho das rugas. Só se não aceitar é que não sente a pele como a capa de um livro coçado. E os sulcos na testa linhas onde o pensamento já se cansa. E as mãos dois arados quedos sem cavalos na alma que os puxem.
É estranho, pois ele entende-se ainda um menino com dois berlindes nos olhos e um pião no lado esquerdo do peito.
Os suspensórios seguram-lhe os calções e os sonhos. E a Primavera é a casa dos ninhos e dos pássaros contentes. Assim quis ficar, teimoso, comendo figos às escondidas do tempo.
Mas o tempo que é uma corda esticada entre o princípio e o fim, não se deixa enganar, porque o tempo é o mestre do destino.
O espelho onde agora se mira, se actualiza e se recicla é uma máquina que lhe tira fotografias ao futuro. É um relógio sem ponteiros pendurado no corredor da vida, dando- lhe anos sem ser preciso dar-lhe corda. É uma espiral que se afasta progressivamente do ponto de partida.
Há já muito tempo que nasceu. Disso não há dúvida nenhuma. Não é fácil envelhecer. Pode ser terno e doce. Mas não é fácil. Principalmente quando ao acordarmos vemos um estranho parecido connosco reflectido no espelho. Deste lado ainda somos verdes. Daquele já somos demasiado maduros.
Vestidos do lado de fora. Desnudados do lado de dentro. Aqui desejo de moço pequeno. Lá ponto final parágrafo. Vá-se lá saber de que lado está a razão! Será de cá deste lado ou por detrás daquela lâmina de vidro?
Há dois tempos diferentes. Há aquele que se entranha nos ossos e o outro que só nos apanha a vida se nós deixarmos. Há o do espelho parado e há o do sangue quente.
Há o das portas que se fecham e o dos céus que se abrem. Há o da quietude sensata e há o do vento maluco. Há o do dia negro e há o da noite clara. O dos lábios secos e o da carne viva. O do corpo quebrado e o do êxtase perfeito.
É preciso então não nos entregarmos ao espelho, não nos deixarmos sucumbir quando nos tratam por senhor, quando somos os mais velhos do bar, quando os cabelos que nos caiem no colo são brancos, quando nos falta o fôlego para correr mundo, quando os filhos já se deitam depois de nós, quando a camisola nos molda a barriga, quando os olhos já não vêem o que viam, as mãos já não sentem o que sentiam e o relógio do corpo vai apressado demais.
Decidiu. Por enquanto não se vai entregar. Irá, em vez disso, rir-se do espelho quando sorrir. Irá alisar as rugas quando lavar os dentes. Raspar as dobras do queixo quando se barbear. Mergulhar na fonte da juventude quando tomar banho.
Mais do que nos relógios, o tempo vive essencialmente nos espelhos.
Faça-lhes frente. Logo de manhã.



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