15h53 - quinta, 08/08/2019

Sobre a morte


Vítor Encarnação
Num assomo poético cru e sobranceiro escrevi um dia, ainda a idade me era leve, que a morte é um bocado de fim com terra por cima. Pois não é. Aqueles sete palmos de terra e as tábuas do caixão não são, sinto-o agora, uma pedra que se ponha em cimo do assunto da partida daqueles que foram nossa parte corpórea e emocional durante anos a fio.
O conceito de morte, e da dor que a ela está associada, tem dimensões diferentes consoante o apego que tínhamos à pessoa. Ou damos os pêsames e fazemos uso de um raciocínio que exprime a lei da vida e a renovação da espécie, ou ficamos quebrados a meio, ali pelo picotado do coração, e sentimos que nunca mais vamos recuperar e queremos morrer logo ali também.
A morte pode vir sem dizer nada, num telefonema, numa conversa de rua. Fulano morreu. Mas ainda ontem estive com ele. Vê lá o que é a vida. Não valemos nada. E a família destroçada, esmagada, o luto a meter-se-lhe nos ossos de repente. Incapazes de perceber, incapazes de aceitar, pondo em causa Deus e o destino, incapazes de falar com a funerária, incapazes sequer de achar que haverá amanhã.
A morte pode vir lentamente. Como uma nuvem ainda lá ao fundo que cresce e se acinzenta e nos vai comendo o azul do sorriso. Fazem-se umas análises e uns exames, tomam-se uns remédios, não há-de ser nada, a ciência está sempre a evoluir. Mas a doença instala-se, a pessoa muda, fica presa dentro de si, vai fazendo de conta que vive. E depois a nuvem cobre e rasga o sol da família, da casa, do quintal, das ruas todas. A pessoa é, mas já não é.
E nesta duplicidade de sentidos, vamo-nos vergando ao inevitável. E depois os outros consolam-nos, falam da fragilidade da vida e dizem, coitado para estar a sofrer foi melhor assim. Mas o que sabem os outros da nossa falta! Do que ele significou para nós em cada átomo da nossa existência, do amor que nos deu, do colo, dos conselhos, do perdão, do refúgio que ele foi, das memórias penduradas em cada canto da casa esmagando-nos de saudade.
O luto é um processo individual, é uma resolução interior, sem tempo definido, sem cor de roupa. Não há fórmula religiosa nem científica que o sustente. É apenas um caminho que temos de percorrer, às vezes durante uma vida inteira.
Num corpo sem vida, a vida toda desse corpo deverá subsistir na nossa lembrança. Devemos entender que ele foi o que foi, viveu o que viveu, viveu como viveu, fez as suas opções. E que agora ali, definitivo, sem retorno, foi feliz à sua maneira.
Porém, ninguém está sozinho na morte de um dos seus.
Quando o corpo desaparece para sempre e acaba o funeral, por maior que este tenha sido, são aqueles que ficam e cruzam por último a porta do cemitério que verdadeiramente contam.



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