10h12 - quinta, 10/10/2019

Feira de Entradas


Napoleão Mira
Hoje é sexta-feira, 3 de outubro de 1962. Como eu, outras dezenas de crianças Entradenses já só pensam no domingo que está para chegar. Este é um domingo especial. É domingo de feira!
Acontecimento que se perde na poeira dos tempos e que eu presenciarei, desconhecendo de todo que esta será a derradeira Feira de Entradas.
Gerações de feirantes aportam a esta terra, que só no último ano perdeu para cima de duas centenas dos seus habitantes. Nos anos seguintes, famílias aos magotes abandonarão a terra plana. Vão à procura do pão noutras paragens. Por ora, situemo-nos apenas nestas vésperas de dia mágico para a populaça Entradense e, sobretudo, para as crianças que não veem a hora de assistir ao rolar do ondulante carrossel Araújo, ou então, do Vieira. Estes são os únicos nomes que registei na minha memória de petiz, provavelmente por ser a coisa mais marcante.
Os frutos secos do Algarve são as guloseimas da época. Pêros, marmelos e romãs perfumam os ares da Rua do Cinema. Os barros de Beringel nas suas diferentes formas e feitios espraiam-se no chão à espera de compradores. Latoeiros, caldeireiros, albardeiros e outros "eiros" artesãos, digladiam-se em pregões, tentando atrair a maralha vinda da terra e dos montes ao redor. Toda uma multidão vestida de grave e inesperadamente feliz se acotovela rua abaixo, apreciando e apreçando produtos e artefactos da sua necessidade.
A feira estende-se pelas ruas circundantes. O grande motor económico deste evento anual é o comércio do gado, especialmente de varas de porcos que se esfraldam até ao moinho de mestre moleiro José Santiago. É toda uma paisagem que se transfigura. Muitos destes feirantes já chegaram há dias. A professora na escola dá folga aos petizes para verem chegar os mercadores, espetáculo sempre aguardado por crianças e adultos que, sentados no adro da igreja, acenam de felicidade aos recém chegados a esta terra perdida no coração da penaplanície.
Um dos veículos da caravana chama a atenção de miúdos e graúdos. É uma velha camioneta carregada de mulheres espalhafatosas. Surgem sentadas nas lonas que lhe servirão de teto nos próximos dias. São prostitutas, com as suas roupas garridas e pinturas exageradas que saúdam a multidão de jovens e velhos machos que, com a mão em concha, segredam ao ouvido mais próximo as suas preferências e projetos de libertação testicular, mal o negócio abra portas. Daqui a 50 anos, hei-de me inspirar numa destas profissionais do sexo para criar a personagem Rosa do romance que escreverei lá para 2012 e que se irá chamar Fado. Por agora, deixem-me usufruir do momento!
É difícil dormir com tanta coisa a acontecer lá fora. Só quero que a manhã chegue. Hei-de ir chamar o Manel António, o Pardal e o Carlos Contreiras para irmos espreitar esse mundo novo que se nos franqueia e nos acelera os corações.
Moirais e almocreves, gente que não vê gente e outros que a veem, mas é como se não a vissem, derrubam, uns atrás de outros, minúsculos copos de medronho da serra. Tentam ganhar coragem para a troco da maquia combinada expulsarem os demónios em forma de sémen que os atormentam. (Daqui a 50 anos voltarei a usar esta linha de pensamento, para definir o animal que carregam dentro de si.) A fila à porta da barraca adensa-se, o corrupio do entra e sai, deixa adivinhar a este quarteto de espreitas que a função já se iniciou.
Reparo numa criança mais ou menos da minha idade que no meio desta azáfama do abotoa e desabotoa braguilhas sai de dentro da barraca. Meio-século volvido há de se chamar Raul, segundo a minha enferma imaginação. Este é um tempo de descoberta. Um tempo vertiginoso onde o mundo é por nós visto por um prisma caleidoscópico. Um tempo onde inocência deixa de ser nome de freira, para passar a responder por malícia. Razão pela qual nossas mães, mais tarde, nos deixarão marcadas no rabo as mãos com que nos costumam acariciar o rosto.
Acorrem-me à lembrança estes episódios, os que vivi e os que inventei, para vos dizer que, nesse ano de 62, teve lugar a última Feira de Entradas. A peste suína, mais a debandada da população, aliada a outros fatores que me escapam, fizeram com que essa fosse a última das feiras da nossa imaginação. Cinquenta anos volvidos, e integrada nas comemorações dos 500 anos da atribuição por parte de D. Manuel I do novo foral a Entradas, foi recriada.
É claro que já não teve (nem poderia ter) o encanto do relato que vos deixo (até porque parte dele é invenção minha baseado em relatos reais). Para mais, os tempos são inevitavelmente outros, apesar de os de agora se parecerem cada vez mais aos de então. Registo o empenho dos e das Entradenses que arregaçaram as mangas e fizeram deste evento um momento a congelar na memória, deixando no ar a fragrância da coragem para levar a cabo tão grandioso trabalho em tão curto espaço de tempo.
Os moldes em que a feira foi organizada, souberam a pouco. Nas conversas que se pressentiam, na franqueza dos sorrisos, nos reencontros inesperados, nos comentários calorosos, na inequívoca aprovação, na expressão feliz de cada olhar, fiquei com a impressão que foi lançada uma semente que há de germinar. Que se transformará num acontecimento regional. Que unirá e reunirá a diáspora Entradense.



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Data: 07/02/2020
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