12h55 - quarta, 29/04/2020

Estado de Consciência


Vítor Encarnação
Certamente muito mais difícil do que decretar o estado de emergência é fazer cessar a sua validade.
Quando há um problema na rua, o mais fácil é fecharmos a porta de casa e protegermo-nos lá dentro à espera que o problema passe, e logo que ele passe, seguros e descansados, reabrimos a porta e regressamos à nossa vida normal. Infinitamente mais complexa é a situação de persistência do problema na rua durante meses.
Chegará o dia em que, apesar da continuação da contrariedade e apesar do nosso medo, nós temos de abrir a porta porque precisamos de comer, de respirar, de viver.
Quando falamos de um país, quem fecha e abre essa porta são os órgãos de soberania. Até aqui, durante estas últimas semanas, tirando aqueles que tiveram que abrir a sua porta todos os dias para irem trabalhar para que a comida pudesse entrar pelo postigo das portas dos que, privilegiados, puderam ficar em casa – este que aqui vos escreve é um deles –, uma boa parte da população, mais serena ou mais saturada, ficou confinada, contribuindo para que a pandemia não ganhasse terreno, pasme-se, com o sucesso que aparentemente apenas é reconhecido em países que nós normalmente veneramos como modelos de perfeição.
Com óbvia exceção dos grupos económicos e de todos aqueles que só conseguem subsistir se todas as portas estiverem abertas, a decisão de manter as portas fechadas foi, para o cidadão comum uma decisão acertada, logo, politicamente uma posição globalmente confortável e inibidora de grandes críticas individuais, partidárias ou ideológicas.
Aparentemente, o estado de emergência vai cessar porque é preciso abrir cada vez mais portas para que o país possa produzir, consumir, permitir acessos, repor algumas parecenças com a normalidade, para que as estruturas familiares, económicas, culturais, de lazer, não morrendo da doença, possam vir a definhar e desaparecer por causa da cura.
Mas a decisão de terminar o estado de emergência trará também algo de muito querido a todos nós portugueses: a atribuição de culpas. Poderemos a partir de agora novamente posicionar o nosso foco de crítica em rostos concretos, partidários, ideológicos. Já chega de não haver nomes e pessoas a quem atribuir responsabilidades, o raio do vírus, para além de não ser visível, é aparentemente imune à nossa incontestável opinião.
Num país em que a atribuição de culpas e a procura de um bode expiatório são questões culturais de base, um período demasiado prolongado de ausência dessas práticas é inconcebível, inaceitável e impossível de aguentar.
Finalmente, uns, no conforto das suas casas, outros no desconforto das suas oficinas, das suas lojas, das suas fábricas, nos transportes públicos, nos restaurantes, vamos poder novamente dizer (ah que saudades!) que se isto tivesse sido feito como nós dizíamos nada disto teria acontecido, que nós avisámos, que nós já sabíamos que isto ia acontecer.
Finalmente os nossos mortos vão ter carcereiros com rosto e nome, os doentes vão saber quem os pôs nessa situação, a falta de medicamentos e produtos de higiene vai ter responsáveis concretos, as nossas deslocações e as nossas liberdades de movimentos vão ser limitadas por um poder abusivo e arbitrário, identificado através de ministérios e fardas, a nossa ida à praia vai ser regulada e podemos nomear quem é que quer acabar com o turismo, vamos saber quem são os malandros que não deixam acabar os campeonatos de futebol, quem é que não nos deixa comer uma sardinhada com os amigos, vamos poder dizer que o que nós precisamos é de uma outra madrugada e de um outro regime.
Perante tudo isto, com portas mais fechadas ou mais abertas, com mais leis ou menos leis, há um estado incontornável que cada um de nós tem de assumir e decretar: o estado de consciência.
No sentido da sinceridade, da honradez, do cuidado, do esmero, da retidão, da justiça, do escrúpulo.



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