12h10 - quinta, 10/09/2020

Poderá a Escola ainda ser o que era?


Vítor Encarnação
Não vale a pena defender o ensino à distância como substituto eficaz do ensino presencial. Por mais argumentos que se apresentem na defesa dessa solução, é consensual entre os professores, se é que essa opinião ainda tem algum valor, que ela não é mais do que um remedeio, incapaz de responder à multiplicidade de desafios e dinâmicas inerentes a uma plena relação de ensino-aprendizagem que só acontece na sala de aula.
O período em que o ensino à distância foi ministrado permitiu concluir que a transmissão de conteúdos e conhecimentos não foi uniforme ou equitativo, antes pelo contrário, alargou assimetrias e expôs ainda mais as desigualdades sociais.
Dessa constatação decorre a decisão de as primeiras cinco semanas de aulas serem de lecionação ou consolidação de matérias relativas ao ano de escolaridade anterior, de maneira a tentar unir algumas pontas que ficaram soltas.
O ensino presencial é uma necessidade absoluta e um modelo incontornável. Não poderá obviamente ser aplicado a qualquer custo, mas devem todos os agentes educativos fazer um esforço, numa mistura de regras eficazes, bom senso e alguma coragem, para que ele seja a normalidade do ano letivo, sob pena de os nossos alunos ficarem fragilizados no seu processo de formação, principalmente aqueles que estão nos anos iniciais do ensino básico, ou seja, nos fundamentos da construção de valores, de conhecimentos, de personalidade.
Já há algum tempo que a Escola não é o que era, logo, este é só mais um desafio. E este desafio, por mais manuais de ajuda e referenciais nacionais que existam, só poderá ser enfrentado caso a caso, escola a escola. Serão as formas de organização e as dinâmicas adotadas por cada estabelecimento de ensino, em conjunto com as autarquias e os pais e encarregados de educação, a clareza de procedimentos, os horários das atividades letivas e das cantinas, a ocupação de espaços e a limpeza dos mesmos, a frequência e a disponibilidade de transportes, que ditarão ou não um clima de confiança e conduzirão ou não ao sucesso.
Dizer que as escolas são os locais mais seguros soa a demagogia, mas afirmar que as escolas são os locais mais perigosos é manifestamente exagerado.
O problema é que as escolas são espaços de confluência de professores, de auxiliares, de encarregados de educação, de alunos. São centenas, milhares, de indivíduos que têm vida para além da escola, que frequentam outros espaços eventualmente não tão higienizados e não tão organizados, e que depois, todas as manhãs, transportam consigo o resultado das suas vidas sociais.
Não se pode pois pedir às escolas que resolvam as idas a festas, convívios, centros comerciais, praias. Deve pois existir um especial dever social de contenção e de cuidado para que não se contraia o vírus fora das escolas e depois se transmita o vírus dentro das escolas.
Como sabemos, a Escola não é só um edifício onde se ensina. A Escola é uma peça importante de uma estrutura social mais abrangente. É lá que ficam os filhos para que os pais possam trabalhar. Se os pais tiverem de ficar em casa com os filhos não podem ir trabalhar. Se não forem trabalhar, não produzem. A partir daqui já é da responsabilidade da política e da economia? Parece, mas não é.
A partir da próxima semana, as escolas vão começar a fazer a sua parte. Entre o receio, as orientações, os frascos de gel, as máscaras e a setas no chão, haverá espaço e tempo para ensinar? Talvez. Mas há muito tempo que a Escola já não é o que era.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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