00h00 - quinta, 01/01/1970

Duas Notas


Jorge Pulido Valente
1. Um Nobre equívoco político
O dr. Fernando Nobre é um homem de grandes qualidades humanas e de enorme valor que apesar de ter realizado ao longo da sua vida uma obra de inegável e inestimável importância, significado e dimensão mantém sempre uma simplicidade e humildade invulgares.
Conheci-o em Mértola quando gentilmente – e com grande surpresa minha por pensar que um homem internacionalmente tão ocupado não fosse ligar a uma iniciativa no Alentejo profundo – acedeu a um meu convite para fazer uma intervenção no Fórum da Interculturalidade.
Admiro-o desde a primeira hora em que o conheci e tenho por ele uma grande estima e admiração. Por estes motivos, e por ter protagonizado um verdadeiro projecto de cidadania alternativo aos esgotados modelos e propostas partidárias, apoiei desde o primeiro minuto a sua candidatura a Presidente da República. E não me arrependo!
No entanto, não posso deixar de reconhecer que politicamente o dr. Fernando Nobre é, presentemente, um equívoco.
O inesperado excelente resultado obtido nas presidenciais, graças precisamente à demarcação relativamente aos partidos e aos seus habituais discursos eleitorais, entusiasmou todos aqueles que se envolveram neste projecto, sobretudo pelo facto de demonstrar que a actividade política não se esgota no quadro dos partidos e que os cidadãos podem ambicionar a democracia directa e a intervenção popular para defender modelos alternativos de sociedade.
Que fazer a este importante capital político acumulado neste acto eleitoral foi a questão que se colocou, seguidamente, a este movimento de cidadania que não quis transformar-se, e muito bem, em novo partido.
Mas afinal, como se veio a verificar ainda antes de tomada uma decisão final sobre o assunto, tudo não passou de um enorme equívoco em que eu e muitos outros milhões de eleitores portugueses incorremos! O dr. Fernando Nobre, surpreendentemente e inesperadamente, decidiu, sem sequer consultar os que contribuíram directamente para a acumulação do referido capital, desbaratá-lo, hipotecando a sua independência ao sistema partidário.
O equívoco político ainda aumentou quando passou a envolver o PSD, o qual pensou que o dr. Fernando Nobre manteria intacto, ou quase, o espólio eleitoral! Exceptuando alguns simpatizantes do PSD que por não suportarem Cavaco Silva votaram no médico da AMI, este deixou de ter valor eleitoral significativo, precisamente porque se integrou no sistema que dizia querer combater e transformar.
Mas o equívoco ainda não ficou por aqui, dado que o próprio dr. Fernando Nobre, com as afirmações que produziu acerca das suas motivações e da ingénua contrapartida exigida, se encarregou de o agravar. Afinal, o lugar que considerou indispensável para prosseguir o seu projecto, a presidência da Assembleia da República, não é de eleição directa nem garantido por uma eventual vitória eleitoral.
O equívoco maior que ainda está por verificar-se é o do próprio candidato a deputado Fernando Nobre. E irá evidenciar-se quando, em minha opinião, o mesmo concluir após uma semana no Parlamento que não aguenta nem mais um minuto num cargo para o qual não tem vocação, perfil ou sequer paciência!

<b>2. Entendimento indispensável e inevitável</b>

Independentemente do resultado do próximo acto eleitoral do dia 5 de Junho, o entendimento entre o PS e o PSD relativamente à constituição do próximo Governo é inevitável, indispensável e inadiável.
Não acredito que qualquer um dos dois partidos tenha condições para obter uma maioria absoluta e não vejo qualquer hipótese que um governo minoritário seja capaz de resistir a contestação social radical que PCP e Bloco de Esquerda – que se alimentam exclusivamente do agravamento dos problemas e do capital de queixa que os mesmos geram – irão lançar e agudizar ate ao limite, com o objectivo de criar uma convulsão no país que lhes abra uma via de acesso ao poder.
Assim sendo, do meu ponto de vista, colocam-se três alternativas:
• Sócrates e Passos Coelho, apesar das incompatibilidades, conseguem chegar a acordo para formar um Governo de salvação nacional;
• Os dois não são capazes de conviver e retiram-se de cena para dar lugar a outros dois protagonistas dos respectivos partidos que constituirão o referido Governo;
• Não há entendimento possível entre ambos e o Presidente da Republica nomeia um Governo da sua iniciativa, chefiado por um independente, aceite e suportado pelo PS e pelo PSD.

A última hipótese parece-me a mais viável e, eventualmente, a mais provável. Veremos!



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