00h00 - quinta, 01/01/1970

Anos dificílimos


Jorge Pulido Valente
Face ao obstáculo que avistou o condutor travou e o carro abrandou, a seguir teve que travar a fundo mas mesmo assim o espaço e o tempo não foram suficientes e o embate foi inevitável, violento e destrutivo. As consequências imediatas, visíveis, são graves e profundas. Mas os resultados da onda de choque, as sequelas subsequentes são ainda difíceis de identificar e de avaliar, bem como o tempo e o esforço necessário para as tratar.
Esta pode ser uma metáfora que permite explicar com facilidade o que esta a acontecer ao nosso País. E era bom e indispensável que alguém o fizesse a todos, com clareza e rigor.
Porque, na verdade, a grande maioria das pessoas ainda não se apercebeu nem se mentalizou dos anos dificílimos que temos pela frente. Em minha opinião nem mesmo alguns daqueles que agora, entusiástica e bem intencionadamente, vão assumir as pastas de ministros e se vão lançar nas actividades e responsabilidades governativas.
Efectivamente, as exigências e dificuldades de exercício destes cargos que no nosso País já são enormes em condições normais, impedindo, na maioria das vezes, que as correctas políticas definidas, sejam fielmente implementadas, são agora incomensuravelmente maiores devido aos prazos curtíssimos em que as ambiciosas metas devem ser atingidas, a reduzidíssima margem de manobra e ao ambiente adverso, de desmotivação e contestação geral que se vai instalar. Com efeito, aqui como na Grécia as pessoas não abdicam de todos os direitos adquiridos, entre os quais destaco o modelo e o nível de vida a que se habituaram.
Ninguém nem ricos, nem remediados, porque os pobres não têm escolha -, quer ouvir sequer as palavras que mais frequentemente vão ter que ser ditas, nomeadamente: poupar, trabalhar, empobrecer, encolher, reduzir, divergir, arrefecer, diminuir, sacrificar, prescindir, redistribuir, adiar, anular, extinguir, fundir, pagar…
Mas o certo é que todos, menos os que já apenas sobrevivem com dificuldade, temos que alterar e reduzir o nosso estilo e nível de vida para contribuirmos directamente para um aumento e uma mais justa redistribuição da riqueza gerada, que sendo pouca, ainda por cima, continua a ficar concentrada nas mãos apenas de alguns.
A torneira dos bancos fechou-se para particulares, empresas e instituições públicas que se habituaram, desde há muito, a viver artificialmente, a crédito, acima das suas reais possibilidades e disponibilidades. Os efeitos desta situação ainda não foram devidamente identificados em toda a sua extensão, mas os casos que surgem, diariamente, de falências, de insolvências, de incumprimentos, de insustentabilidade financeira, de salários em risco, de despedimentos, de dívidas brutais, de créditos mal parados, vão ter consequências sistémicas que ninguém é capaz de avaliar com rigor.
O certo é que no próximo ano todos os orçamentos sejam eles familiares, das empresas ou das instituições públicas vão ter que sofrer cortes drásticos e profundos para emagrecerem o suficiente para se adequarem às reais disponibilidades financeiras, o que se traduzirá em reduções a todos os níveis.
A nossa sociedade tem, por isso, que ser refundada com base num novo paradigma e noutro modelo de desenvolvimento.

<b>Nota: </b>se a vida de ministro já e normalmente difícil eu não queria estar no lugar, designadamente, de Assunção Cristas e de Álvaro Santos Pereira, sem dúvida, uma super-mulher e um super-homem, que, desde já, podem esquecer a sua vida pessoal – saúde mental incluída – e familiar.



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