07h00 - quinta, 21/05/2020

Filipe Venâncio (CDA):
"O futebol é uma das
profissões mais injustas"

Filipe Venâncio (CDA): "O futebol é uma das profissões mais injustas"

Depois de um turno de 12 horas na mina, Filipe Venâncio falou ao "CA" sobre a prestação do Desportivo de Almodôvar na temporada de 2019-2020 e sobre uma carreira futebolística que já leva mais de duas décadas.
"Dentro daquilo que consegui atingir, foi uma carreira muito positiva", afirma Filipe Venâncio, que já pensa na despedida dos relvados.

O campeonato distrital da 1ª divisão terminou mais cedo, devido à Covid-19, e o Almodôvar ficou-se por um modesto 12º lugar (em 13 equipas). Que avaliação faz da prestação da equipa nesta época?
Dos anos que já jogo no Almodôvar, esta foi das épocas mais irregulares que já tivemos. Começámos logo com sete ou oito lesões no início do campeonato e quando temos um plantel curto, quer se queira quer não, isso faz mossa. Sentimos essa fraqueza, as coisas não começaram a correr bem de início e depois, com o prolongar da época, as coisas foram-se arrastando. Não era nossa ambição terminarmos na posição em que terminámos, pois sempre fomos uma equipa que andou nos lugares cimeiros e não estávamos habituados a ficar numa posição destas. Foi uma época um bocado aquém daquilo que esperávamos.

Mas este desfecho menos positivo pode justificar-se só por estas lesões no início da época ou houve algo mais a condicionar o sucesso da equipa?
Foi mesmo por aí… Sabemos que quando de início não se começa bem, tarde ou nunca se endireita.

Já assim é o ditado.
Tal e qual… E é mais que certo! É uma lesão, depois é um castigo, de seguida há um jogo menos bem conseguido… Ainda mais, aqui em Almodôvar temos um problema – que não é problema, pois nos outros anos correu sempre bem – que é ter vários jogadores a trabalhar na mina, por turnos, o que faz com que em determinadas semanas só façamos um treino ou dois. Ou às vezes até nenhum! Temos esse problema de nunca conseguirmos treinar com os atletas todos, mas nuns anos tem corrido bem e não é agora que isto é uma desculpa. Foi mesmo um ano em que as coisas de início não nos correram bem, a época foi-se arrastando e terminou assim… Infelizmente.

Duas trocas de treinador também não ajudaram?
Isso nunca ajuda. Aliás, quando foi a saída do mister Sandro [Almeida] pelo Pitico, eu sempre achei – e falei disso com alguns elementos da direcção – que o nosso problema não passava por aí. Porque o Sandro conhece o distrital como ninguém e conhecia a equipa como ninguém. Por isso, sempre achei que não era solução o Sandro sair. Mas assim foi e depois veio o Pitico, que fez o melhor que conseguiu, mas as coisas também não correram muito bem… Foi o que se conseguiu fazer.

Tendo 41 anos, esta foi a sua última época?
É uma coisa que ainda estou a ponderar. Tenho de ponderar certas situações e depois – em conjunto com a família e com os próprios colegas, direcção e treinador – irei decidir se vou terminar ou continuar.

Noto que há vontade de continuar, até para ter uma despedida efectiva dentro das quatro linhas?
Claro que sim, porque o "bichinho" está sempre cá dentro. É um amor que já vem de há muitos anos e que não vai cair assim sem mais nem menos.

Que avaliação faz da sua carreira, onde chegou a jogar na 2ª divisão B e até no estrangeiro [no Ceuta, em Espanha, em 2001-2002]?
Penso que, dentro daquilo que consegui atingir, foi uma carreira muito positiva. Sempre fui bem recebido onde joguei e tive a sorte de não ter tido muitas lesões – apenas uma no joelho e outra quando estive em Espanha, que me obrigaram a períodos de maior paragem, de resto nunca tive grandes problemas com lesões. Logo de início, quando estava no Farense, ficou um pouco a mágoa de não ter tido mais oportunidades, mas o futebol é feito disso. Como eu, muitos jogadores belíssimos que encontrei na 2ª e na 3ª divisões também não tiveram essa oportunidade por este ou aquele motivo. Mas o futebol é feito disto e hoje em dia a gente também vê que há injustiças e oportunidades que não são dadas. Ou oportunidade que são dadas e as coisas não correm bem… Mas o futebol é feito disto e por isso digo que é uma das profissões mais injustas que há! Porque mexe com muita coisa, mexe com muitas emoções e é vivido por muita gente.

Nestes largos anos como futebolista, qual o momento mais marcante?
Se calhar o título de campeão distrital aqui em Almodôvar [em 2012-2013]. Porque ninguém o esperava, nem eu próprio…

Porquê?
Porque não. Tínhamos muitos miúdos novos na equipa, com 20, 21 anos, e até me recordo de uma vez estar à conversa com o nosso capitão, o [Bruno] Lebre, e dizer-lhe, em desabafo, "este ano estamos tramados, é só moços novos e vamos andar aqui a levar goleadas em todos os campos". Mas o que aconteceu é que chegámos ao final do campeonato, fomos campeões e foi uma surpresa muito agradável!

Quando pendurar as chuteiras pretende continuar ligado ao futebol, talvez como treinador?
Isto está dentro de mim e vai continuar. Como treinador não direi, mas ligado ao futebol quase certamente vai ser. Pode não ser logo nos anos seguintes, mas de certeza que mais tarde vai ser.


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