Carlos Pinto
José Tomé Máximo
"Nunca me senti uma estrela"
 |
Nasceu Antónia de Jesus Montes Tonicha, mas todos a conhecem pelo último nome. Aos 62 anos, a artista bejense está de regresso à “cidade-natal” e em grande entrevista ao “Correio Alentejo” lembra os principais momentos da sua carreira artística.
Que representa este seu regresso às origens, a Beja?
É normal! Porque temos algo que nos puxa à terra.
Sendo um regresso quase “natural”, era algo que estava nos seus planos?
Há largos anos não contava [com este regresso]. Porque tinha muito trabalho, não parava. E não pensava voltar.
E quando é que o regresso a Beja começou a entrar nas suas “contas”?
A partir do momento em que tive um problema de saúde. E a seguir o meu marido. Achei então que devia acalmar e regressar às origens colocou-se como algo natural para mim. Estar mais calma, ver os amigos de infância que me conhecem desde miúda… E tem sido uma maravilha!
Sendo uma mulher tão popular, as pessoas na rua ainda se metem consigo?
As pessoas são uma maravilha. Em Beja tratam-me muito bem. E eu gosto muito de cá estar.
Neste seu regresso a Beja, nota muitas diferenças na cidade quando comparada com a cidade da sua infância?
A cidade está muito diferente. Os meus passos estão lá. [O sítio] onde brincava e os sítios que frequentava estão iguais. Mas parte da cidade ainda não conheço. A cidade aumentou e eu gosto, sinceramente, de estar aqui.
Nasceu em Beja há 62 anos, no Dia da Mulher [8 de Março]. Como foi a sua infância?
Muito feliz. Brincava, tinha os meus amigos… Tive uma infância normal para as crianças dessa época.
Quando é que sentiu que a música faria parte da sua vida?
Desde sempre. Digo desde sempre porque era muito pequenina – ainda sou, não cresci muito [risos] – e já cantava em cima das cadeiras ou debaixo das mesas. E a partir dos meus 10, 11 anos começaram a levar-me à [Sociedade] Capricho Bejense para eu cantar.
Imitava alguém?
É claro que tinha de cantar as canções dos outros. Mas nessa altura já cantava música tradicional. Lembro-me, por exemplo, de cantar “O Mar Enrola na Areia”, que gravei mais tarde.
Sentiu cedo a veia artística…
Senti nessa altura que não podia fazer outra coisa. Além disso, da parte do meu pai é tudo gente ligada à música. Aquilo era praticamente uma orquestra. E na altura tinha – e tenho – uma prima que ingressou na Emissora Nacional (EN), na escola de canto do professor Mota Pereira. E transmitiam todas as semanas um programa dessa escola, através da EN, e eu ouvia…
E sonhava em, um dia, estar do outro lado a ser ouvida?
Sim. A minha prima cantava e aquilo “batia-me” muito. E um dia, como diz a cantiga, parti no comboio para o Barreiro, onde tinha um tio-avô que era chefe dos caminhos-de-ferro. Fui lá passar uns tempos para ver se conseguia alguma coisa. E depois fui perguntando, batendo a todas as portas e entrando.
Como surgiu a possibilidade de chegar à EN?
Primeiro, conheci uma professora de canto [Corina Freire] que me indicaram. E ela disse-me que eu tinha todas as hipóteses de ir para a frente. E foi aí que tive conhecimento que havia, de mês a mês, um concurso na EN. Inscrevi-me e fui chamada. Éramos 40.
Ainda se lembra desse dia?
Como se fosse hoje. Era muita gente… Lembro-me de cantar três canções. E depois imagine como fiquei quando soube que tinha ganho. Era aquilo que eu queria e ali estava. E depois tinha muita genica. Não parava, não estava à espera… Fui prestar provas à RTP e também fiquei. A partir daí, na EN havia uns programas de estúdio todas as semanas, com uma grande orquestra, e faziam programas em directo. E além disso, faziam serões para trabalhadores. E eu comecei rapidamente a fazer essas coisas e a ganhar o meu dinheiro.
Da rádio chegou à televisão, mas também ao público e, geral, com a presença em muitos festivais. Foi uma época [anos 60] de grande crescimento musical?
Durante muito tempo ia fazendo coisas novas. E nessa altura apareceu o [Quarteto] 1111 com muita força e eu comecei logo a gravar com eles. Fiz dois discos com eles, trabalho que a imprensa achou muito bom. Paralelamente, ia cantando também – por influência do meu marido – música tradicional portuguesa. Foi um êxito!
E surgem também as participações nos festivais da canção. Em 1968 ficou em segundo e em 1971 venceu mesmo, com o tema “Menina”, que lhe valeria o 8º lugar no Festival da Eurovisão em Dublin (Irlanda)…
Isso nunca tinha acontecido. Ficávamos sempre em último e um 8º lugar foi bom.
Na altura, era muito requisitada, tanto no país como no estrangeiro. Sentia-se uma estrela?
Não. Tinha noção que era conhecida, mas não tenho esse espírito de estrela, de vedeta... Nunca tive! É a minha maneira de ser.
Menos qualidade
na música portuguesa
Teve um grande destaque nas décadas de 60, 70 e 80. Foi um período em que a música portuguesa estava em alta.
Estava. E tínhamos a preocupação de gravar coisas boas. A qualidade para nós era muito importante. O Festival da Canção era uma coisa incrível, as pessoas fechavam o comércio mais cedo, reuniam-se as famílias. Era tudo muito bonito e os cantores sempre preocupados com o que estavam a fazer. Para além de ter sido uma época em que muitos dos cantores tinham a preocupação de trabalhar a voz.
Hoje essa preocupação é menor?
Acho que sim. Há muita quantidade e menos qualidade. Mas o que temos de bom é mesmo bom. E temos coisas boas. Mas depois também temos muita palha!
Essa situação tem também contribuído para que nos últimos seja dado um menor destaque ao seu trabalho?
Não se deve a isso. Porque tenho um nome que as pessoas conhecem e vou trabalhando. Não ando é na loucura em que andava quando tinha 20 ou 30 anos. Vou fazendo os meus espectáculos calmamente.
Dos artistas de agora, quais as suas preferências?
Há muitos. Mas não queria entrar por aí… E também temos de contar com a minha geração, que está aí. É o Paulo [de Carvalho], o Fernando [Tordo], o Carlos Mendes… Muitos deles têm trabalhos novos e estão a cantar com uma voz estupenda. Lá fora, os cantores com uma carreira são respeitados.
E em Portugal isso não acontece?
Há menos respeito pelas carreiras. No entanto, digo sinceramente que a minha vida artística sempre foi uma maravilha. Não posso dizer o contrário.
Uma carreira que a deixa orgulhosa?
Sim. E não me arrependo de nada.
Consegue eleger os momentos marcantes deste percurso de mais de quatro décadas?
Foram muitas coisas. Marcante foi a evolução que ia fazendo à medida que avançava. Mas há o Festival da Canção que ganho – porque era importante nessa época. Nesse ano não fiz um espectáculo em Portugal, que não tive tempo, pois andei pelo mundo. Há os trabalhos com o Quarteto 1111 e o Patxi Andion… Há imensas coisas que me marcaram ao longo de 42 anos de carreira.
No futuro, como é que gostaria de ver a sua carreira recordada?
[silêncio] Penso que fiz, sem querer parecer vaidosa, uma carreira importante. Tenho à volta de 600 canções gravadas. É muita música e é uma carreira que as pessoas vão recordar.
O amigo Ary dos Santos
e as três novas canções
Gravou centenas de canções e há muitas que ficaram no ouvido dos portugueses, como o “Zumba na Caneca” ou o “Zé que fumas”. Essa fase mais popular da carreira é a sua preferida?
É o estilo de música que chega mais facilmente às pessoas. Mas nem por isso é a minha fase preferida. Gosto porque é um trabalho cultural cantar as canções do cancioneiro. Considero isso um trabalho importante, porque faz parte da nossa cultura popular. Paralelamente, canto canções de grandes poetas de que gosto muito.
Tem autores de referência? Trabalhou com grandes nomes…
A maior é o José Carlos Ary [dos Santos] na poesia. Era um homem único em todos os aspectos. Porque era um homem que não sabia uma única nota de música mas que fazia os poemas para as canções com uma facilidade absolutamente espantosa. Era um grande poeta.
Sente-se com vontade de gravar?
Estive em estúdio há pouco tempo! Estive a gravar três canções novas que vão sair num best of.
E esse best of vai sair quando?
Não sei exactamente quando. Estava para sair em Maio e neste momento é capaz de sair lá para o Outono. E tem três canções novas: uma do Jorge Palma, outra do Paulo de Carvalho e do José Fanha, e outra do José Marinho com um poema do século XVIII do Gonçalo Crespo. Foi a última que ele [José Marinho] fez como compositor. Morreu pouco tempo depois… São três boas canções.
E venham mais cinco… alentejanos!
A música foi, é e será sempre uma paixão na vida de Tonicha. Mais afastada dos palcos, a artista mantém em Lisboa uma banda pronta para qualquer actuação, ao mesmo tempo que em Beja começa a dar os primeiros passos na companhia de mais cinco músicos da região. “Tonicha e Venham Mais Cinco… Alentejanos” é um projecto que, revela a artista, nasceu de uma “brincadeira” mas que é encarado de forma cada vez mais séria.
“Podemos fazer coisas engraçadas”, garante a artista, que tem a seu lado João Cataluna (acordeão e voz), Armando Torrão (viola clássica e voz), António Caturra (tracanholas e gaita-de-beiços), Gabriel Costa (baixo e voz) e Luís Melgueira (percussões).
A influência do marido
João Viegas, de 77 anos, é a “cara-metade” de Tonicha há cerca de quatro décadas. Natural do Ribatejo, destacou-se como radialista e depois como apresentador da RTP, onde ao lado de Pedro Homem de Melo divulgou o trabalho de centenas de grupos corais e folclóricos de todo o país. A etnografia é, aliás, uma paixão na vida de João Viegas, o que o levou a influenciar a sua esposa a enveredar por uma “veia” mais popular. “A certa altura, pediu-me para experimentar a cantar uma cantiga de folclore. Não sabia bem se gostaria muito, mas adaptei-me e passei a gostar”, lembra Tonicha.
|